segunda-feira, Julho 18, 2005

18 Julho 98/05

Gracias a la Vida, que me ha dado tanto.
Que me ha dado la risa, las noches, los dias y con tu compania...
Que asi lo haremos, locos, sérios, solidários y solitários.
Gracias a la Vida por todo lo mas que nos dará...
En buena compania...

terça-feira, Julho 12, 2005

Transmontano

Gostei do poema de Vilarinho...
Fui adoptada por Trás-os-Montes, faz-me falta sentir-me alí para respirar, lá voltarei em breve. E espero bem que um dia destes, deixe de haver bilhete de volta.
Pelo nossa torga.
Aquela planta que espalhou nas palavras a alma e o sangue da nossa terra de penedos e gente.

sexta-feira, Julho 08, 2005

Porque hoje é dia 08/07/05

É injusto e cruel sempre que uma pessoa morre inocente.
Dói-nos sempre na alma ver imagens de mortos, sangue, terror . Escandaliza os nossos princípios europeus de respeito , fraternidade e democracia.
Parece-nos chocante quando afecta o nosso status de países europeus e civilizados. Abana as nossas consciências acomodadas e seguras.
Sim, é chocante morrerem dezenas pessoas que não têm culpa das desgraças que correm por este mundo…
Mas enquanto escrevo estas palavras…
Morreram alguns milhares de crianças sem nunca ter tido direito a um prato de comida, sem terem tido direito a uma cama, sem nunca terem tido direito a um copo de água potável.
Desde que comecei a escrever, já morreram milhares nos continentes do sul do planeta, sem terem direito a que a sua morte seja transmitida em directo pelos ecrans de televisão, sem nos dar direito a indignação.
E quando por vezes os vemos na televisão, doentes , famintos, a tentar mamar num peito vazio, as caras e as bocas tremendas de moscas e feridas, sentimo-nos tão doídos por nós termos a mesa cheia de desperdícios de comida e eles coitados, são assim, do terceiro mundo, apenas tão pobres , tão famintos, apenas porque são escuros e não têm água e nasceram em países que nós brancos e europeus exploramos há séculos , todas as riquezas deles tiramos, sem nada devolver, a não ser alguns sacos de farinha excedente fora de prazo de validade para os nossos animais.
Estão a morrer de fome aos milhares, de sede, de sida, de malária, porque nós temos o nosso excelente serviço de saúde e o nosso telemóvel tão imprescindível, que não podemos devolver a esses países a riqueza que lhe roubámos durante séculos.
Nada de chocante ver corpos estilhaçados nas ruas de Bagdad, ver corpos mutilados no Ruanda, ver os meninos da rua de Bogotá, ver os meninos das lixeiras de Luanda, ver os meninos com Sida de Joanesburgo, ver os meninos suicidas da Palestina, ver as meninas da esquina em Bangkoque, ver os meninos secos moribundos de Darfur….morrem aos milhares , todos os dias para que o nosso status de comodidade continue a ser garantido!
Aqueles olhos abertos de vida (com o mesmo valor que a nossa por acaso…) não têm direito a vir chorar para a televisão….
Esta civilização ocidental que tanto desequilibro criou neste planeta, destruiu civilizações, ecossistemas, vidas apenas para garantir o nosso bem estar.
Mas pela glória do incas que entregaram o prémio merecido aos conquistadores espanhóis, nos dias que correm , não irá ser por muito mais tempo que continuaremos a roubar o essencial a esses povos que destruímos, muito rapidamente e eles nos virão entregar o prémio da nossa sede monstruosa de ouro, de petróleo, de riqueza. Eles virão com a calma de quem nada tem a perder na vida , ameaçar as nossas cidades em que tantas coisas temos medo de perder.
Virão matar a nossa cede devoradora de petróleo, que tantos mortos já fez por este mundo. Virão todos fazer –nos engolir o nosso deus petróleo, quando nós sedentos clamarmos por àgua para beber e já nada dela restar de limpo neste planeta terra.
Finalmente nós ocidentais, receberemos sem glória o prémio de ter destruído um planeta cheio de vida , quando os pobres deste mundo nos fizerem matar a nossa sede com petróleo.
Que a paz esteja com eles.
E que a consciência, em breve regresse a nós.

Pelo nosso direito à indignação!
Indignemo-nos ! Indignemo-nos por todos a quem a morte apanha certeira, apenas por terem nascidos em países onde nunca tiveram direito à vida!
Indignemo-nos!
Definitivamente!

terça-feira, Junho 28, 2005

Simples...

Temos a mania de chamar aos nossos filhos ingratos. E às vezes mesmo quando não lhes chamamos nomes alto, chamamos baixinho, e magoa-nos na alma achar que os queríamos mais perto, e eles insistem em ficar longe ou, mesmo aparentemente , a esquecer-nos por completo. E no entanto, é o facto de acharem que não nos devem nada que prova que fomos realmente boas mães. Porque só quando o amor é mesmo incondicional é que nunca pomos em causa a sua existência. E convenientemente com total naturalidade, e sem alaridos histéricos, com as coisas que consideramos absolutamente certas e garantidas. Não passamos o dia a agradecer a água que nos corre das torneiras, nem ao sol por se dignar a nascer, nem à nossa mãe por gostar de nós. “ Bolas, é o mínimo “, diria você, e pode ter a certeza de que se um dia fizer a pergunta ao seu filho levará com um “ Dahhhh! A mãe é minha mãe”. Um filho que se sente plenamente filho , não se consome de remorsos a pensar que fez com que a mãe perdesse noites de sono à sua conta, nem que a bicicleta que recebeu custou o suor do trabalho, nem pede desculpa por estar doente, nem se rala um bocadinho que a mãe suba e desça as escadas dez vezes, porque se lembrou de que precisa urgentemente de beber um copo de água, trincar uma maçã, ou simplesmente porque se esqueceu da pasta do outro lado da casa. Um filho, digno desse nome , não tem medo de que as suas limitações ou as suas fraquezas façam diminuir o amor dos pais por ele nem tem vergonha de vir para a cama deles a meio da noite porque tem medo do escuro. Nem acredita que alguma vez possa ser um empecilho na vida dos pais, ou sequer que eles tenham alguma coisa mais interessante para fazer do que o levar a uma festa ou jantar com ele na pizzaria da esquina. É por isso que não precisam, (quando os pais os amaram de facto incondicionalmente, e não transformaram o seu amor numa chantagem ), de pôr um azulejo à porta a dizer que o amor de mãe é o melhor do mundo ou a tatuar o braço com tão singela dedicatória. Pensam , e pensam bem, que os pais gostam dos filhos, é essa a sua “ função “, ponto final. E, senhores, que pelo menos uma coisa na vida seja assente e descomplicada!
E que Deus os conserve nesse estado de graça, porque o mundo só se vira ao contrário, e a solidão só se sente a sério, quando uma noite a arder em febre, se sussurra um “ eu quero a minha mãe” …e ela não vem.



o texto é da Isabel Stilwell, mas achei de uma simples beleza...

quarta-feira, Junho 22, 2005

Maria, sobe que sobe…

Depois de uma noite de conversas e copos na tasquinha preferida, acorda de madrugada, faz o estufado para o almoço do marido, chega cedo à feira das couves comprar ameixas para os seus meninos.
Chega cedo ao trabalho, relações comerciais com italianos, alemães, japoneses fala com todos com gosto, Internet, intranet, templates, folhas de cálculo, chefe de homens , gestão , valorização, investimento.
Chega a casa , morre de saudades pelos seus meninos, passa a roupa a ferro, faz merenda e farnel, e corre a comer no seu penedo de torgas entre vacas e cavalos , com o seu amor no alto do monte junto ao céu.
E acaba a noite na tasquinha preferida com o seu amor, entre conversas da existência e das causas sociais.

Ai Maria, quantas Marias há em ti? Quantas Marias numa só.
Entre a simplicidade e a humildade, algo de orgulho também.

terça-feira, Junho 21, 2005

Aos meus Amores

Aos meus queridos pais, de quem herdei as minhas duas costelas alentejanas, com quem aprendi a ser viajante irrequieta, sei que sonharam e lutaram para mim, por tudo o melhor que conheciam, sofreram por mim, e agora, já madura, sei que o conseguiram, em tudo o que faço penso em vocês, só demoraram algum tempo a conhecer o meu caminho. Mas é de vocês que aprendi muito do que sou.

Aos meus meninos, foram a minha luta, o meu sonho, a minha existência, ensinei-lhes a bater as asas, e a voar livres. Agora, por tanto que trema de saudades, chegou para eles a primavera, e já sabem voar sozinhos, voam alto e com rumo certo.

Ao meu amor , companheiro de tantas horas boas e más, de noites e de dias, opiniões demasiado fortes, princípios com raízes, já não podem existir horas sem ti.

Aos meus amores, obrigado pela vida.

segunda-feira, Junho 06, 2005

O céu e a terra no seu lugar

Conhecemos o paraíso.

Descobrimos o lugar onde a terra e o céu se encontram.
Corno do Bico e Cerdeiras.

Quero que os rapazinhos o conheçam rapidamente, tanta beleza pode desaparecer num piscar de olhos.

Descobrimos o paraíso na terra , o nosso lugar.
Cavalos, lobos, abelhas, sardões, potros, árvores de todas as cores e formas.
E há lugar para patos, duas ovelhas e um porquinho rosado.
E um tanque, e a pedra da lareira.

E um espaço a perder de vista.
E o silêncio, silêncio.

vai ser o nosso lugar.

quinta-feira, Junho 02, 2005

Trova do tempo que passa

Cada dia há menos paciência para aguentar pessoas ignorantes e vulgares.

Cada dia mais o meu instinto de pureza animal está a atingir uma maior dimensão.
Impossivel fingir com quem nada me diz nem tem nada para dizer. Do que não gosto, não vejo simplesmente.
Instinto selectivo de besta.
Alguem que não me dá bons sentimentos, porque apenas tem a cabeça e o coraçao vazio, simplesmente não existem.

Cada dia mais perto dos bichos dos penedos, e cada dia mais longe das maniqueirices de nulos pseudo urbanos de conversas vazias.

Cada dia mais perto do céu, cada dia mais perto do vento que passa.

segunda-feira, Maio 30, 2005

Montes

Parti de trás os montes, e deixei lá a vista, o cheiro, o coração, o palpitar do coração.
Tenho de voltar.

È ali que quero viver. Aguias, vacas, cobras, sardões, minhocas , sapos, aranhas, burros, cães, milhões de pássaros, grilos.

Viver compartindo espaço com a vida.
E o tempo passa devagar...
Que não demore a voltar.

quarta-feira, Maio 25, 2005

Trás os Montes

Rumo ao Nordeste, mais uma vez , e sempre.

Na Terra dos Sonhos podes ser quem tu és!

Penedo, rude, agreste, rio, singelo, feio, agua fria, sóbrio, castanho, terra, burro, castanhas, monte, planalto, frio, azenha, forte, terra, terra, terra.

terça-feira, Maio 24, 2005

Reforço da ideia anterior

O nosso Eng.º da Cova da Beira está na ONU!

Vai ocupar o lugar em que Sergio Vieira de Mello entregou a vida.
Que a solidariedade o ilumine , para bem de todos os homens e mulheres de de boa vontade.

Quem fez tanto mal ao meu País?

Quem andou a fazer tão mal ao meu país nestes últimos anos?

Somos o território mais antigo da Europa, descobrimos mares e Terra Nova, temos poetas, pintores, o melhor azeite e vinho, gente boa , que trabalha e desenrrasca.
Cientistas e trabalhadores elogiados em todo o mundo, temos bolos de bacalhau e pasteis de nata, software portugues no Japão e na Nasa, os melhores sapatos e caravels, o nónio, o Padre Himalaia . Somos os melhores no paio alentejano e nos moldes, em coração mole e ovos moles.

Só podiam ser nossos tais homens, poetas e heróis como Camões, Torga e Salgueiro Maia.
Grande país de iscas, pipis, pataniscas ,folares e alheiras. Serras em que perco a vista, planícies em que me deito, rios que correm entre penedos.

Amo esta minha Terra.

Que andou esta gentalha de baixo nível, de falta de moral e raciocínio duvidoso a destruir a minha Terra de tantos séculos , durante estes últimos anos?

Zé do Telhado ! Maria da Fonte ! Com as armas que estão nas nossas mãos , é hora de desandar os Cabrais e Vasconcelos desta Terra!

sexta-feira, Maio 20, 2005

Cabo Verde- aula de criolo

Encontrei ontem o meu amigo Serafim, caboverdiano orgulhoso a morrer de sodade do seu Mindelo natal, lá vai trabalhando ao sol uns dias nas obras do metros , outros dias nas obras da auto-estrada.
A sorrir diz-me no seu criolo cantado:

uuuuuu T Q O B D C UUUUUU

já o entendi...

" us piquenos te qobedece us grandes "

entre a morna e o fado..

Verde que te quero verde

Quem foi o cobarde que mandou cortar as árvores centenárias do Campo d'Agonia?
Eu vi as árvores caírem, eu ouvi as árvores chorarem.
Que homem cruel e sem coração pôde mandar fazer aquilo?
Aquele moura não tem de certeza algo que até nem lhe deve fazer muita falta!
Que o espirito dessas árvores o atormentem cada noite!

Eu ouvi aquelas àrvores chorarem quando caíram, e doeu-me também.

quinta-feira, Maio 19, 2005

Oferta de Trabalho

Mulher , já com cor de nesperas maduras, que trabalha há muitos anos, e com grande vontade de começar a trabalhar na àrea da honestidade, qualidade e boa vontade,
procura trabalho a partir da próxima lua nova no:
COMPLEXO AGRO-PECUARIO DO CACHÃO
Motivo: querer trabalhar na terra em que quero viver (na terra onde já vive o coração), trabalhar com a terra, mãos sujas que a àgua lava, tratar dos animais, falar com os bichos.
Se ainda houver vagas, eu estou lá ao levantar do sol.

quarta-feira, Maio 18, 2005

Futuro

É pensado cada dia que acordo.

Há terra, a Terra, terra castanha, por baixo de cada torrão de terra há minhocas e outros bichos. Há uma casa branca, telhas de barro vermelha, janelas verdes.
Há duas ovelhas, seis patos, doze galinhas, um porquinho cor de rosa e um rosa com malhas pretas, há um burro que passa os dias debaixo da nespereira.
Há um moinho de vento que range, um tanque de tijolo, junto ao tanque um assento em pedra abrigado debaixo da parreira, para as conversas ou silencios das noites de lua e das conversas à hora da sesta.
Há feijão, couves e um alqueire de azeite, um naco de azeitonas e pão de centeio.
O tempo faz-se quando o sol se levanta e quando a lua muda os quartos.
A àgua cai do céu e corre no ribeiro entre as pedras.
Diz-se bom dia a quem passa de longe a longe, as abóboras secam nos campos, e o sangue das veias corre ao mesmo ritmo da água do ribeiro.

Eu tenho um sonho...
E um dia quando acordar vai ser real...

sexta-feira, Maio 06, 2005

"Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só."

Portugal

Pátria
Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.
Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.


Miguel Torga, «Antologia Poética».




Camões


Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.
Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
Chega aos teus pés e como que arrefece.
Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.
Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!


Miguel Torga, «Antologia Poética».

quinta-feira, Maio 05, 2005

Secura

Às duas terras do meu coração:
Aos penedos sóbrios e agrestes de Trás-os-Montes e ao pasmar da torreira alentejana.


Portugal
Um Reino Maravilhoso
(Trás-os-Montes)

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
– Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
– Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.
Reino, nestes livros sinistros que são os dicionários, é um substantivo masculino com rei à frente. Imaginem!... Como se fossem suficientes um léxico e um monarca para definir e governar uma realidade irreal!
Pelo que diz respeito a mandar, é o que sabemos:
– Para cá do Marão...
Mandam todos. O poder que atravessa a muralha e penetra ali, se tem corpo, se tem nome, ou perde a marca individual e se transforma em símbolo, ou morre. Tem de ser sempre, quer seja Pio X ou Pio XII, o «nosso Santo Papa Leão XIII», que é quem a Maria Purificada elege em cada conclave na sua Vila de Freixo de Espada à Cinta...
Incapazes de uma obediência imposta de fora, os habitantes da terra apenas consideram naturais e legítimos os imperativos da própria consciência. O eco duma ordem estranha à sua harmonia interior desliza pela crosta das almas sem as perturbar. As mais altas dignidades de além fronteiras nada mais representam do que puras expressões nominais de valores abstractos. Meta-se um cristão por qualquer dos caminhos que levam ao coração geográfico desse mundo encantado. De certeza que lhe aparece um semelhante de aguilhada na mão, socos pregados e roupa de saragoça, a perguntar:
– Ó meu Senhor, sempre é verdade que o nosso rei agora é o Doutor Afonso Costa?
Faça o que fizer o Tamerlão invasor, a mesma vontade que ele julga dobrar o deseroíza e vence. É ela que, a bem ou a mal, acaba por dispor das riquezas que lhe pertencem: das águas de regadio, dos baldios, da mulher e dos filhos, e de si. De tudo o que na vida material e espiritual tem grandeza e sentido. No pormenor, no que não é seiva de ninguém, dão sentenças o Regedor e o Senhor Abade, que, afinal, pregam editais nas portas e sermões nas igrejas...
A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Montalegre a Chaves, de Chaves a Vinhais, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz-Côa, Meda, Moimenta e Lamego – toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.
Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto. Sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão...
O vinho é de moscatel, alvaralhão, penaguiota, malvasia fina, e mana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra do Horeb – a vara mágica do patriarca substituída agora por um alvião de saibramento. Por toda a parte apetece saboreá-lo, porque mesmo onde a neve, o sincelo e o suão crestam a esperança, mesmo aí ele parece veludo no paladar. Mas há lugares santos onde a santidade é maior. Assim acontece no Roncão, Samos de todos os Samos.
Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
Mas a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Produz batata, azeite, cortiça e linho. Batata farinhuda, que se desfaz na boca; azeite loiro, que sai em luz da almotolia; cortiça que deixa os sobreiros nus para agasalhar os enxames; e linho fresco, fino, que, tecido em lençóis, faz o bragal das noivas.
De figos, nozes, amêndoas, maçãs, pêras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos dum pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a primavera estala nos ramos. Ver uma encosta de Barca de Alva coberta de flores de amendoeira, ou o solar de Mateus a emergir dum mar de corolas sortidas, é contemplar o inefável. Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta – a castanha. Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença...
É destes que se tem de partir para chegar à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras e os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha-se a bizarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira. Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove... E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai, o perfume das graças dadas por alma dos que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou da Índia.
Mas o panorama zoológico não se fica pelo animal de vista baixa que se desfaz em torresmos e chouriços. Passando pelo lobo do Eusébio Macário, que só por si vale um tigre do Kipling, pelo boi de Miranda, que só lhe falta falar, e pelo bicho da seda que de Bragança aveludou em tempos Seca e Meca, temos ainda a perdiz, a fera da Mantelinha, que nenhum forasteiro deve deixar de ver. Em Outubro, quando o sol ainda a espreguiçar-se de sono lava a cara na fonte de Casal de Loivos, certo perdigueiro, que sobe o monte colado ao chão, já com um aceno perfumado a fazer-lhe cócegas no nariz, pára de repente siderado. Manda-se-lhe dar a pancada. O navarro entra, e só então Sua Senhoria aparece.
Cabeça alta de quem olha o mundo de cima, peito largo aberto ao vento, pés seguros de almocreve. – Pfrrruuu...u...u. Lá vai ela! Quando o tiro lhe acerta e cai, parece uma deusa morta... No cinto, ainda se lhe tem respeito...
A truta, que representa com dignidade e bravura o mundo da barbatana, é nos açudes que mostra o que é. Sobe por eles acima como os rapazes pelos mastros ensebados, e só com sofismas a pescam uns filósofos sem filosofia, que vale a pena observar, de cana em riste e saltão no anzol. Quem for a Boticas, coma um peixinho desses e beba-lhe "vinho de mortos" em cima. Pelo que houver, fico eu. Acudo-lhe com o único remédio decente que se conhece para moela fraca – um quarto de Pedras ou de Vidago, águas minerais que nascem perto. A terra é de tal natureza que, não contente com as dádivas a céu aberto, encerra nas entranhas riquezas que não têm conto. Entra-se no ventre duma serra, e é ferro, é oiro, é chumbo, é estanho, é volfrâmio, é zinco, é urânio, é tudo quanto Vulcano forjou. Caldas, então, é um benza-te Deus. São famosas as de Carrelão, as de Moledo, as de Alfaião, as de Chaves, as de Carvalhelhos e as de Sabroso – porque todas elas fazem milagres perfeitos. E vêm então peregrinos de muito longe – gente que arrebentou ou se envenenou a comer um boi e a beber um tonel – curar nelas o estômago, o fígado, a gota, os eczemas e a melancolia. Tomam-nas durante quinze dias. Ao cabo, regressam, de corpo novo e alma nova.
Os naturais é que raramente precisam delas, por serem homens de muita saúde e sobriedade.
Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! Usam todos bigode e alguns suíças. E põem naqueles pêlos da cara uma dignidade tal, um sentido tão profundo da pessoa humana, que é de a gente se maravilhar. Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê-se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologais porque Deus não quer. Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem. Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros, é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
– Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.
Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.
Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.
Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos (se não tiver sido antes), depois da militança, alguns emigram para as Arábias de além-mar. Brasis, Áfricas e Oceanias. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Mourejam como leões, fundam centros de solidariedade humana por toda a parte, deixam um rasto luminoso por onde passam, e voltam mais tarde, aos sessenta, de corrente ao peito, cachucho no dedo, e com a mesma quimera numa mala de couro. Gastam cem contos numa pedreira a fazer uma horta, constroem um casarão com duas águias no telhado, e respondem com ar manhoso a quem lhes censura um amor tão desvairado às berças:
– Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho...
E continuam a comer talhadas de presunto cru.
Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. E ali ficam nuns cemitérios de lívida desilusão, à espera que a lei da terra os transforme em ciprestes e granito.
Alegrias gratuitas têm poucas. Embebedam-se nas festas e nas feiras, batem a cana-verde nos dias grandes, e gozam os robertos e as vistas que levam de povo em povo um sofisma de ventriloquia e a irrealidade serôdia das terras do Preste João.
–Ó Zé Roberto:
Queres casar comigo, que sou uma rapariga bem boa?
Bem boa! Bem boa! Bem boa!
– Olha o «Vatícano», olha o «Vatícano», com as suas 365 janelas, e o Papa a olhar a uma delas... Quem quer ver? Quem quer ver?
Nas romarias, verdadeiramente, não se divertem. Pagam nelas o dízimo espiritual ao santo ou à santa com quem têm contratos pelo ano fora, e fazem a barrela das suas relações humanas.
A capela da devoção fica no alto do mais alto monte que rodeia a freguesia. E eles sobem então pela serra acima, quer à vara do pálio, quer a alombar o andor, quer de joelhos, a abrir uma chaga de sofrimento no corpo pecador – mas sem tirar os olhos do inimigo com quem hão-de medir forças no arraial. Sobem numa penitência inteira. Ao descer, vêm numa manta, esfaqueados.
Dessas mortes ficam pelos caminhos memórias de pedra com alminhas do purgatório a pedir orações, que são a História íntima do reino resumida em padre-nossos. A outra, toda feita de lendas e fantasia, tem o seu tombo no coração dos que são poetas, e conta-se nas fiadas. Na loja dos bois, ao calor aconchegado da bosta quente a fermentar a palha, envolto na luz pacífica de uma candeia de azeite, o rapsodo mais velho começa:
– No tempo da Princesa Clarimunda...
À meia-noite o fuso pára nas mãos adormecidas das fiandeiras. Erguem-se todos. Mas no dia seguinte chega-se ao fim.
De Celtas, Iberos, Romanos, Moiros, etc. e tal, e dos do tempo dos afonsinos, os velhos dão pouca relação. Em todo o caso mostram os dólmens do Alvão, a Porca de Murça, a ara do deus Aerno, os castros desfeitos, os altares de Panóias, a ponte romana de Chaves e a Domus Municipalis de Bragança. O tempo mudou os símbolos da fé, deliu as inscrições sagradas, e relegou para a penumbra da arqueologia o que foi vivo e útil. Por isso, olham todas essas relíquias numa espécie de melancolia esquiva. Renúncia inconformada, que, num desesperado esforço de encontrar os secretos tesoiros da unidade eterna, às vezes os leva a meter um cartucho de dinamite nas pedras veneráveis, a ver se elas resistem à inquietação do presente.
É certo que há escolas pelo país a cabo onde as leis inexoráveis do perecível e do imperecível são explicadas. De uma sei eu em que certa palmatória de cinco olhos faz decorar tudo quanto no mundo se descobriu até à raiz quadrada. Mas mesmo nos reinos maravilhosos acontece a desgraça de o povo saber duma maneira e as escolas saberem doutra. Acabado o exame da quarta classe, cada qual trata de sepultar sob uma leiva, o mais depressa que pode, a ciência que aprendeu.
A não ser o Senhor Varatojo, que dá sota e ás ao mais pintado doutor. Na inquebrantável decisão de levar tudo ao fim, na teimosia que, uma vez segura da sua verdade, não cede a nenhum argumento, e no gosto inquieto de conhecer, podia ter sido um novo Fernão de Magalhães, a dar a volta aos mundos de agora. Mas como infelizmente a pátria não convida os filhos para tais empresas, empregou-se na Câmara, come do bom e do melhor à custa de quem lho vai meter no bico, toca bandolim, e lê quantos romances se escreveram. Depois conta-os na farmácia, e pinta o diabo se alguém o desmente.
– Tenho a certeza matemática! – grita congestionado.
E tem, porque sabe de cor as vírgulas e as peripécias. Outro dia chegou mesmo a ir a Paris, só para ver num parque público o banco onde uma heroína qualquer deu um beijo ao namorado. Entra esbaforido na estação da Vila, pede um bilhete, e aí vai ele. Chegou lá, não quis saber de mais nada:
– Faça favor: onde é o Bosque de Bolonha?
Olhavam-no todos como quem olha um fenómeno, mas sempre lhe disseram. Parecia um tiro pelas ruas a cabo. Ao fim duma hora de caminho, chegou ao sítio. Examinou, calculou, andou, virou, tornou, até que deixou sair do peito um arranco de triunfo:
– Foi neste!
– Neste, o quê?!
Ele então explicou. Assombrados e cépticos, os de lá puseram-se a rir. Felizmente que o romance estava escrito em francês...
E como alguém duvidasse, já não do juízo do homem, mas de tudo se ter passado mesmo, mesmo naquele banco, o Senhor Varatojo mostrou a página do livro, tirou do bolso do colete o relógio, e provou:
– A cena passa-se no dia 24 de Agosto, às quatro horas. Ora bem: estamos a 24 de Agosto e são quatro horas em ponto. O banco onde os dois se sentaram tinha sombra. Não há mais nenhum com sombra. Portanto...
Meteu-se outra vez no comboio, cabeçudo, e retomou as suas funções, sentado à secretária, sempre com as virtudes do povo na ponta da língua, a garantir que Camilo é o cronista do Reino, e a confessar que vai todas as noites ao jardim da Carreira ouvi-lo sobre política, religião e literatura. Ainda não encontrou fonte onde bebesse com tanto gosto...
Os contribuintes pagam a décima e riem-se. Que diz o Senhor Varatojo!? O Camilo! O Camilo levou mas foi uma grande coça na Senhora da Azinheira, outra na Senhora da Saúde, outra na Senhora dos Remédios... Fazia-se fino!...
Engole em seco e muda de conversa. Como é também da mesma laia, capaz de cobiçar a mulher do próximo e varrer uma feira a estadulho, não insiste. Sabe muito bem que vive entre irmãos que não mudam de camisa para esbofetear o mais pintado, seja ele o autor do Amor de Perdição, mas que também lhe tiram o chapéu, caso o mereça. Fracos em letra redonda, sabem todos honrar a grandeza verdadeira. E a prova é que lá o têm, a esse trágico inventor de tragédias, entronizado no coração das fragas, a receber o carinho eterno da terra onde foi menino e génio. Bateram-lhe realmente nas romarias, mas deram-lhe o maior bem que se pode ter:
O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.


Miguel Torga, «Portugal». Coimbra, Ed. Autor, 1950; 4.ª ed. revista 1980.

De volta ....

Depois de mais algumas viagens por outras terras, depois de mais um 25 de Abril, voltamos à escrita, com o pensamento num herói como o Maia, e só a escrita de um coração grande como Torga nos poderia fazer voltar a esta terra, a esta nossa mátria de penedos , heróis e poetas.

Portugal
O Alentejo
Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.
Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.
Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem, que no inverno se veste dum pelico castanho, e no verão duma croça madura. Que é parda mesmo quando o trigo desponta, e loura mesmo quando o ceifaram. Queixam-se da melancolia dos estevais negros e peganhosos, que meditam a sua corola branca um ano inteiro, da semelhança aflitiva das azinheiras, que parecem medidas pelo mesmo estalão, e não distinguem nos rebanhos que encontram, quer de ovelhas, quer de porcos, as particularidades que individualizam todo o ser vivo. Afeitos à variedade do Norte, que até aos bichos domésticos consente cara própria e personalidade, aflige-os a constante do Sul, que obriga todo o circunstancial a ocupar o seu lugar de zero diante do infinito. Perdidos e sós no grande descampado, sentem-se desamparados e vulneráveis como crianças. Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total.
Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos. A percorrer o Alentejo, nem me fatigo, nem cabeceio de sono, nem me torno hipocondríaco. Cruzo a região de lés a lés, num deslumbramento de revelação. Tenho sempre onde consolar os sentidos, mesmo sem recorrer aos lugares selectos dos guias. Sem necessitar de ir ver o tempo aprisionado nos muros de Monsaraz, de subir a Marvão, que me lembra um mastro de prendas erguido num terreiro festivo, de passar por Água de Peixes, que é um albergue de frescura e de beleza na torreira dum caminho, ou de visitar a Sempre-Noiva, onde há perpètuamente um perfume de flores de laranjeira a sair do rendilhado das janelas manuelinas. Embriago-me na pura charneca rasa, encontrando encantos particulares nessa pseudo-monotonia rica de segredos. Nada me emociona tanto como um oceano de terra estreme, austero e viril. A palmilhar aqueles montados desmedidos, sinto-me mais perto de Portugal do que no castelo de Guimarães. Tenho a sensação de conquistar a pátria de novo, e de a merecer. O chão das outras províncias já se não vê, ou porque vive coberto pela verdura doméstica de oito séculos, ou porque a erosão levou toda a carne do corpo e deixou apenas os ossos. Mas a terra alentejana pode contemplar-se ainda no estado original, virgem, exposta e aberta. E é nela que encho a alma e afundo os pés, num encontro da raiz com o húmus da origem. Abraço numa ternura primária as léguas e léguas duma argila que permanece disponível mesmo quando tudo parece semeado. O corpo, ali, pode ainda tocar o barro de que Deus o criou.
Mais do que fruir a directa emoção dum lúdico passeio, quem percorre o Alentejo tem de meditar. E ir explicando aos olhos a significação profunda do que vê. Porque cada propriedade se mede por hectares, são em redil os aglomerados, respeitosos da extensão imensa que os circunda, e um suíno, ou relegado à sua malhada, ou a comer bolota no montado, não faz parte da família, – é que o alentejano pôde guardar a sua personalidade. E talvez nada haja de mais expressivo do que esse limite nítido entre a intimidade do homem e a integridade do ambiente. Assegura-se dessa maneira a conservação duma dignidade que o bípede não deve alienar, nem a paisagem perder. Se há marca que enobreça o semelhante, é essa intangibilidade que o alentejano conserva e que deve em grande parte ao enquadramento. O meio defendeu-o duma promiscuidade que o atingiria no cerne. Manteve-o vertical e sozinho, para que pudesse ver com nitidez o tamanho da sua sombra no chão. Modelou-o de forma a que nenhuma força, por mais hostil, fosse capaz de lhe roubar a coragem, de lhe perverter o instinto, de lhe enfraquecer a razão. E é das coisas consoladoras que existem contemplar na feira de qualquer cidade alentejana a compostura natural dum abegão, ou vê-lo passar ao entardecer, numa estrada, com o perfil projectado no horizonte, dentro do seu carro de canudo. É preciso ter uma grande dignidade humana, uma certeza em si muito profunda, para usar uma casaca de pele de ovelha com o garbo dum embaixador.
Foi a terra alentejana que fez o homem alentejano, e eu quero-lhe por isso. Porque o não degradou, proibindo-o de falar com alguém de chapéu na mão.
Mas não são apenas essas subtis razões éticas e geográficas que me fazem gostar do Alentejo. Amo também nele os frutos palpáveis duma harmonia feliz entre o barro e o oleiro. Amo igualmente o que o homem fez e a terra deixou fazer. Diante de um tapete de Arraiolos, ou a ouvir uma canção a um rancho de Serpa, implico o habitante e o habitado no mesmo processo criador, e louvo-os no mesmíssimo entusiasmo. Não há arte onde o homem não é livre e a natureza não quer. Dando às mãos ágeis e fantasistas materiais nobres e moldáveis – o mármore, o cobre, a lã, o coiro, e o barro –, a terra alentejana quis que a vida no seu corpo tivesse beleza. E de Norte a Sul, desde as campanhas da Idanha, que já lhe pertencem, às figueiras algarvias, os seus montes, as suas aldeias, as suas vilas e as suas cidades são marcados por um selo de imaginação e de graça. Aqui uma varanda onde um ferreiro fez renda, acolá um pátio onde um pedreiro inventou uma nova geometria, além uma oficina onde um caldeireiro fabrica ânforas esbeltas e vermelhas como cachopas afogueadas. Aproveitando os incentivos do meio e os recursos do seu génio, o alentejano faz milagres. A própria paisagem sem relevo o estimula. Faltava ali o desenho e a arquitectura, que nas outras províncias existem na própria natureza. Pois bem: concebeu ele o desenho e a arquitectura. E, na mais rasa das planícies, ergueu essa flor de pedra e de luz que é Évora!
Beja tem a sua torre de mármore, com uma tribuna para ver meio Portugal; Portalegre os seus palácios barrocos, para encher de solidão; Elvas o seu aqueduto de sede arqueada e a sua feiura para meter medo aos Espanhóis; Estremoz a sua praça do tamanho de uma herdade. Mas Évora olha os horizontes do alto do seu zimbório espelhado, povoa as casas de lembranças vivas e gloriosas, e, sequiosa apenas do eterno, risonha e aconchegada, enfrenta as agressões do transitório com a força da beleza e a amplidão do espírito.
Será talvez alucinação de poeta. Mas porque nela se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de luar. E, sem guia, manda-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva completa do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no político e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.
Compreender não é procurar no que nos é estranho a nossa projecção ou a projecção dos nossos desejos. É explicar o que se nos opõe, valorizar o que até aí não tinha valor dentro de nós. O diverso, o inesperado, o antagónico, é que são a pedra de toque dum acto de entendimento. Ora o Alentejo é esse diverso, esse inesperado, esse antagónico. Tudo nele é novo e bizarro para quem o visita. Os arcos, as silharias, as abóbadas e os coruchéus das suas casas; a açorda de coentro e o gaspacho de alho e vinagre das suas refeições; as insofridas parelhas de mulas guisalheiras a martelar as calçadas ao amanhecer; as pavanas cinegéticas que oferece aos convidados; os magustos de bolota; os safões dos homens e o chapéu braguês das mulheres – são ferroadas no nosso cotidiano. Mas o que tem interesse é precisamente revelar aos olhos, ao paladar e aos ouvidos a novidade dessas descobertas. Mostrar-lhes a originalidade de uma vida que se passa ao nosso lado, e tem o inesperado de uma aventura. E mostrar-lho carinhosamente! Sem espírito de simpatia, tudo se amesquinha e diminui. E coisas grandes, como uma semeada ou uma ceifa no Redondo, podem ser reduzidas à pequenez duma vessada ou duma segada beiroa.
Quem vai ao mar, prepara-se em terra – diz o ditado. Aplicando a fórmula ao Alentejo, teremos de nos preparar para entrar dentro dele. Será preciso quebrar primeiro a nossa luneta de horizontes pequenos, e alargar, depois, o compasso com que habitualmente medimos o tamanho do que nos circunda. Agora as distâncias são intermináveis, e as estrelas, no alto, brilham com fulgor tropical. Teremos, portanto, de mudar de ritmo e de visor.
O Alentejo, visitado por alguém que leve consigo a capacidade emotiva e compreensiva de um verdadeiro curioso, é um Sésamo que se abre. As suas fainas, os seus costumes, as mutações impressionantes do seu rosto quando tem frio ou quando tem calor, os seus trajes e a sua própria fala – são outros tantos motivos de meditação e admiração. Mas o que nele é sobretudo extraordinário e a sua inflexível determinação de conservar uma fisionomia inconfundível, haja o que houver. Pode-se preferir uma região mais maneira ou mais angustiada, e uma gente menos soberba, mais autênticamente humana, e mais sinceramente generosa. Herdades mais à medida dos pés, cultivadas por semelhantes sem o ar de fidalgos a gozar férias rurais. Mas não se pode negar a evidência duma terra que merece como nenhuma este nome maternal e austero, e muito menos a dos filhos altivos e afirmativos que dá, imaginários como poetas e duros como azinhos. Cepa e rebentos de tal modo unidos e conjugados, que formam como que um só corpo e um só espírito. Um corpo hipertrofiado, que hipertrofia o espírito por indução.
O alentejano que sobe ao alto do castelo de Évora-Monte, erguido ali ao lado da térrea casinha da Convenção onde a concórdia da família portuguesa foi assinada, ele que tem o sangue de Giraldo-sem-Pavor a correr-lhe nas veias, que assistiu às façanhas e às hesitações do Condestável, e que fez parte da insurreição do Manuelinho, sente naturalmente dentro de si o irreprimível orgulho dum homem predestinado. A seus pés desdobra-se o extenso palco do seu destino: a infindável planície a que dá vida e movimento. São os rios e os ribeiros secos que faz transbordar de suor, os negros montados que alegra de vez em quando pintando de vermelho cada sobreiro, a sua casinha escarolada e erma com uma mimosa na botoeira, e as searas que ondulam e reverberam num aceno de abundância. Um mundo livre, sem muros, que deixou passar todas as invasões e permaneceu inviolado, alheio às mutações da história e fiel ao esforço que o granjeia. Nenhum limite no espaço e no tempo. Seja qual for o ponto cardial que escolha a inquietação, terá sempre o infinito diante de si, em pousio para qualquer sementeira. E essa eterna pureza e disponibilidade do solo exaltam o ânimo do possuidor.
Sim, pobre ganhão que seja, ele é um rei nos seus domínios. Não há outro português mais rico de pão, agasalhado por tão quente manta de céu e dono de tantos palmos de sepultura. Que minhoto ou estremenho se pode gabar de ver sempre o vulto dum seu irmão, que não tem medo da imensidade, a abrir um risco de fogo e de esperança com a ponta da charrua?


Miguel Torga, «Portugal». Coimbra, Ed. Autor, 1950; 4.ª ed. revista 1980.

quinta-feira, Março 03, 2005

3 de Março

Conheco um menino que hoje faz 21 anos.
Já nao é um menino, é um homem feito , que é o meu orgulho de obra feita.
Tenho saudades dele pequenino, daquele sorriso que ainda hoje tem, de o ver andar de triciclo, sempre forte e teimoso.
Fez-se um homem, com ideias proprias e criticas, (alias um defeito que existe em casa...).
Sempre decidido, inteligente, (nao muito trabalhador..), autentico peixinho.
Que a tua vida tenha toda a garra que tu tens, que a tua capacidade de conquista construa a tua vida com tudo o que de melhor te rodeares.
Um beijo do tamanho do amor que tenho por ti.

terça-feira, Março 01, 2005

1 de Março

Hoje o meu Peixinho faz anos.
É a minha companhia há muitos anos. Nunca estamos de acordo , mas sempre concordamos juntos.
Dois pensamentos fortes que não se conseguem dobrar, ideias de dois, que em afirmaçao se reconhecem num só.
São sempre dois para dois , e sempre juntos num só.
Sempre contrarios e sempre juntos.
É impossivel imaginar os meus dias e horas sem ti.
Amo-te.

segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

Voltar

Estamos de volta a Portugal.
Estivemos juntos, descobrimos muitas coisas novas, cidades, neve, vivências.
Voltamos mais ricos interiormente.
Mas cada vez mais , qunado me afasto desta nossa terra, sinto que é aqui que pertenço, que é aqui o meu lugar.
Nada de novo lá fora, além dos bons momentos que passamos juntos em familia.
Voltamos a uma terra que entretanto mudou, cheia de esperança, de novos sonhos, comuns.
Como com nós próprios com a idade, habituamo-nos a orgulharmo-nos daquilo que somos e a conviver até com os nossos defeitos, porque até eles fazem parte da nossa individualidade e da nossa identidade.
É com orgulho que vemos que os portugueses no nosso autentico assumir de democracia conquistada, sabemos ir à luta quando a nossa terra precisa de nós.
E esta terra ainda vai cumpriir o seu ideal, vai tornar-se num imenso Portugal.
E Portugal vai-se cumprir.

sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

Liberdade!

Vamos de férias!
Alguns dias de Liberdade com os meus tres Homens que sao o meu orgulho de companhia e a minha obra bem construida.
Temos o mapa e caminhos para percorrer.
Ate a volta!

Confissoes de uma Anarquista convicta!

Sou Anarquista ha demasiados anos.
Acredito no Anarquismo como responsabilizaçao do individuo nos actos e na vida.
Nao acredito em rebanhos, acredito em Pessoas. E na Liberdade!

Eu vou la no dia 20!
Porque votar nao é direito adquirido. Votar é um DEVER de responsabilidade que temos como membros de uma sociedade. O dever de defender aquilo em que acreditamos , o dever de defender uma sociedade mais justa para para aqueles que menos direitos tem. Pelo Futuro das geraçoes que nos seguem, para que possam continuar a dizer : sou Português , com orgulho !
Ir votar é o meu dever , por tantas vidas que foram sacrificadas para que hoje tenhamos esse direito.
E ja agora, quero votar , nao em pessoas , porque no fundo o poder corrompe o mais bem intencionado, quero votar em ideias, de liberdade , de justiça, de trabalho, de honestidade, desenvolvimento, educaçao e CULTURA!
(vejam se adivinham....)

terça-feira, Janeiro 25, 2005

Vida

Os teus filhos nao sao teus filhos, sao filhos e filhos da vida, uma flecha lançada de um arco.
Que a tua inclinaçao na mao do arqueiro seja direcçao certa.
Kahil Gibran

sexta-feira, Janeiro 21, 2005

Inverno

Dois frutos voaram com o vento, e a raiz reorganizou espaço de antigos sonhos.

segunda-feira, Janeiro 17, 2005

Miguel Torga

E ca volto eu a lembrança de um Homem que conheço, e faz hoje 10 anos que partiu na continuaçao da sua viagem solitaria, e nos a nos com o coraçao mais cheio, de alma, de montes, de rios, de inconformismo, de sonhos e de Humanidade.

Diario da Criaçao do Mundo dos Bichos da Montanha

"Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só."

Alentejo

A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...


Um Reino Maravilhoso
(Trás-os-Montes)

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.

«E eu falo do povo amorfo, anónimo, que pratica as façanhas sem saber sequer que elas o são, e que não oferece palras preciosas aos cronistas para ser lembrado nas crónicas. (...)

É esse Portugal rude e cabeçudo, sempre igual a si mesmo e sem qualquer ambiguidade nos sentimentos - que a nobreza de outrora nunca conseguia arrastar nas horas de compromisso, e a burguesia de agora nos vícios em que se degrada -, que eu gostava que fosse conhecido.»

«Vejo perfeitamente que aplico regras lógicas a um jogo ilógico.»

«Sou realmente do partido do Diabo»,

«Nenhuma árvore explica os seus frutos»

Com efeito, no seu penúltimo livro, «O Sexto Dia da Criação do Mundo», o autor recorda-nos, a dado passo, que, quando «aturdido pelo clamor demagógico de mil vozes a pregar-lhe a redenção», o país se encontrava «na beira do uma nova opressão» - desceu à praça pública «a pugnar por um socialismo fraterno de raiz anarquista».
«um socialismo à nossa feição, construído em liberdade», «fruto de tendências naturais»
«As mesmas forças visíveis e invisíveis que nos mandam existir, mandam-nos existir unidos e mandam-nos existir sem cadeias. Exige-o a natureza austera, ensina-o o exemplo dos nossos antepassados, entende-o a nossa lucidez.»
«O comunitarismo espontâneo das minhas serras - as vezeiras dos gados, as águas de regadio quinhoadas, as mútuas, a entreajuda nas fainas, o forno e o boi do povo - serviam-me agora de paradigmas.»

«Pode acontecer que, por excesso de abstracção, no advento da justiça social, que tanto desejo, a integridade da natureza humana seja sacrificada à eficácia...»
«alarmado do mais íntimo do ser, fortaleço-me no vigor intrínseco dessa evidência que trago plasmada no sangue: as leis da existência gregária emanadas do lúcido jogo das necessidades, da correspondência afectiva e do soberano conselho do povo.»

Depoimento

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.

Ate Sempre Torga!


quinta-feira, Dezembro 30, 2004

A um novo ano

O planeta rodou uma vez mais em torno do sol.
ca estamos nos outra vez a teorizar sobre a nossa superior capacidade de inteligencia e raciocinio, que dizemos ser muito mais elevado que a dos outros seres vivos que connosco cohabitam este mundo.
O nosso planeta apenas flutua no espaço, sem propriedade, sem leis.
Nenhum outro animal teve necessidade de inventar maquinas , tecnologia, ferramentas, apenas a nossa especie por ser a mais fragil e inadaptada no planeta, pensou ter poder para dominar, destruir e aniquilar apenas em meio seculo aquilo que a natureza criou no tempo e no espaço infinito.
Mas a Natureza comprovou ha bem poucos dias, que lhe basta um pequeno abanao para tornar em apenas po o nos pensamos ser o reino da civilizaçao...
O homem nao pode continuar a brincar aos deuses.
Que no proximo ano todos tenhamos mais respito pela força da Natureza e pela vida que so ela pode criar ou destruir.
Para todos uma boa nova translaçao terrestre.

terça-feira, Dezembro 14, 2004

Alguem continua a ter vontade de jogar o Master of the universe????

Cada dia mais que olho em volta para o mundo em que vivemos, tenho um sentimento de aterrorizadora tristeza.
Como e possivel sentirmo-nos comodos e seguros, sabendo que neste mesmo momento em tantos lugares um homem esta a ser torturado e espezinhado pela insegurança e fraqueza de outros homens que escondem a cobardia atras das armas, que neste momento tantas mulheres estao a morrer com o filho ao colo, depois de caminharem quilometros por terras aridas a fugir da fome e da guerra que nao sabem de onde vem, que neste momento uma criança de olhos enormes e a cara cheia de moscas esta a morrer porque nasceu na unica especie animal que se destroi a si propria.
Como podemos continuar indiferentes? Como podemos continuar tao cobardes?
Porque ficamos surpreendidos com esta nossa evoluçao tecnologica dos ultimos cinquenta anos? Se olhamos para o que fizemos no planeta, somos simplesmente ridiculos! Sera que daqui a dez, vinte anos os nossos filhos terao ar para respirar?
Agua para beber? Como e possivel pessoas necessitarem de falsas emoçoes de adrenalina, joguinhos de computador em vidas vazias , falsas emoçoes que fingem substituir e emoçao e o feito heroico de viver cada dia com o coraçao aberto de amor e as maos abertas para abraçar, lutar, construir, viver.
Como e possivel continuarmos a falar em maravilhas da tecnologia e joguinhos, quando se olha nos olhos uma criança que vai morrer porque nao tera nem uma gota de agua para o corpo desidratado.
Porra acordem!
Nos somos os maiores criminosos! Porque e pela nossa total indeferença que os poderosos continuam a matar e a destruir o mundo.
Jovens olhem para o mundo que vao herdar e sintam vergonha, ergam as maos e lutem!
Abram os olhos, abram as maos, abram o coraçao e amem como minimo a vossa especie e o planeta em que vivemos (ainda...)



sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Noite

Gosto da noite e da madrugada.
Pela noite somos reais, sem as mascaras da luz do dia.
Pela madrugada o ar e limpo e as ideias novas.
Na escuridao perdemos alguns sentidos, mas conquistamos a percepçao, e os instintos sao mais reais. E as ideias nas palavras , explodem com mil e um sentidos novos.
Meninos comam os tremoços enquanto estao quentinhos!...

quinta-feira, Dezembro 02, 2004

PORTUGAL

Vamos dizer SIM ou Nao, pela NOSSA TERRA.
PORTUGAL, nossa terra .
Nao aceitamos a indiferença , nem o desleixa.
Mexam-se!
Por respeito a todos os homens e mulheres que construiram a Historia da nossa Patria.
Volta Maria da Fonte!

segunda-feira, Novembro 29, 2004

Resistentes

Aprendemos, conhecemos , e tornou-se uma das regras da casa.
Sentido critico com todas as atitudes da vida. Saber os porques, as causas, as explicaçoes de tudo o que nao faz sentido. Resistir a ignorancia, resistir as nao verdades, resistir as primeiras imagens, se ficam duvidas de consciencia.
Apenas o ceu e os montes, e o Santana e as pessoas de coraçao limpo sao verdadeiras ao primeiro toque.
Resistir a incultura e ao superficial.
So as rugas dos penedos, o cheiro do vento , o sal do mar , a sombra do sobreiro na planicie , e o amor de maos abertas e palavras claras e simples podem justificar a nossa condiçao humana.

quarta-feira, Novembro 24, 2004

Palavras...

Faz bem escrever.
Momentos de paz ou inquietude que nos atravessam o espirito aberto e atrves do pensamento exorcizamos o coraçao.
Um ornato na aurora de viana.
Escrevam!

segunda-feira, Novembro 22, 2004

Menino

Hoje um menino faz anos.
Tenho saudades dele, nervoso, exaltado, so coraçao. Acredita tanto que o mundo podera ser perfeito, que o ira conseguir sim.
Vao ser momentos de perfeiçao interior como tem todas as pessoas de coraçao honesto e pensamento inquieto.
Havera muitos porques, porque o mundo em revoluçao constante nao se compadece com as consciencias inconformadas.

Os Herois da Vida , lutam no tempo com a força do pensamento e as armas do coraçao.
Para o menino que faz anos hoje.

sexta-feira, Novembro 19, 2004

Torga

Ontem a noite lemos Torga, o Diario.
Retempera a alma e fortalece o espirito, e entregamo-nos ao sorriso da sinceridade e da verdade.
Da sentido as nossas viagens saber que ha pessoas intemporais, ler a quarenta anos de distancia, com os mesmos olhos , a mesma realidade que um dia ele encontrou no mundo .
Podia ser hoje, actual, porque verdadeiro.
Um homem de essencia, de profundidade de alma ,que amou os penedos , a humanidade, os bichos.
Como a torga, nunca quebrou, viveu inteiro, na terra.
As palavras que guardo: Amor, Liberdade .
Havemos de voltar, torga.

quinta-feira, Novembro 18, 2004

AURORA

Anda aí pela aurora
um poeta a solta
pensei ser Baudelaire ou Rimbaud
mas não,
tem a quimica de António Gedeão
onde andas poeta do Pavilhão Chinês? responde-me.

quarta-feira, Novembro 17, 2004

Não há paciência!

Já não tenho mais paciência para conversas vulgares e sem significado, já não tenho paciência para pessoas que não me fazem estremecer com a emoção de aprender algo importante quando converso com elas.

Que valor enorme tem a vida quando as pessoas com quem falamos nos ensinam , nos mostram o significado da vida , das emoções, das recordações, da luta, dos sonhos.

Tenho a sorte de ter algumas dessas pessoas perto de mim, em alguns momentos da minha vida, são poucas mas encontrei-as.

Para as outras....já não há paciência nem minutos a perder.

terça-feira, Novembro 16, 2004

Simplesmente...OTÍLIA

Há um lugar na cidade que nos aquece a alma e o corpo. Sentados em conversas sem fim sobre o absurdo, a vida, o sonho, a música, ou simplesmente os tremoços...

Ai Otília, quantos corações aqueces, quantas vidas seguras, quantas histórias passaram.

És a história viva da cidade, e contas-nos histórias que embalam.

Noites que respiram , palpitam.

E não se pode pedir a caneca cheia, que logo nos começa a faltar....Até amanhã D.Otília, como todas as noites.

Penedos

Tenho saudades de verde, tenho saudades de penedos, dos penedos do meu mestre Torga, da Terra rude donde ele nasceu e que me adoptou a mim.

Arrepia-me o vazio televisivo em que aqui se vive, em que todos são os melhores e os mais bonitos . Na terra dos penedos , a intensidade brutal com que eles nos olham de frente , a rectidão com que se agarram ao céu, fazem-nos ver como somos tão pequenos, frágeis, singelos. Aquela omnipresença de montes , rochas frias a transbordar de vida, fazem-nos sentir a nossa necessidade paga de deuses em forma de mundo, de vida.

Quando estou rodeada de penedos por trás dos montes entendo como as pessoas se tornaram tão fortes , sóbrias, e belas de alma. Tenho tantas saudades dos penedos... quando estou longe, necessito deles para respirar e viver...

sexta-feira, Novembro 12, 2004

Há muitos muitos anos

Quando eu era pequenina, ainda mal abria os olhos, e já era para te ver...VIDA.
Vou ter tempo e espaço para as pessoas e momentos BELOS da VIDA.
Venham comigo. Viajemos....